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França em crise à espera dos socialistas

Modelo de Hollande é o oposto do adotado com êxito pela Alemanha

O candidato socialista François Hollande é o favorito natural às eleições presidenciais de abril na França. Por um motivo simples: devido à crise europeia, na qual os governos são obrigados a impor duras medidas de austeridade, quem está no poder é castigado pelo eleitor. E quem está no poder na França é a centro-direita de Nicolas Sarkozy. Os socialistas estão na oposição.

Mas Hollande, que lidera as pesquisas de intenção de voto, não se fiou nisso e sacudiu a campanha com dois pronunciamentos, domingo e quinta-feira. No primeiro, aos correligionários em Le Bourget, declarou guerra ao mundo das finanças, o grande causador da crise que se arrasta desde 2008, o império sem nome e sem rosto que assumiu o controle da economia e da sociedade. Hollande prometeu enquadrar os bancos para se certificar de que eles ajudarão a financiar a economia e não ameaçarão a poupança das famílias. No segundo, enumerou 60 medidas para recolocar nos trilhos o país, que acaba de ser rebaixado da nota de risco mais positiva, AAA. Uma delas é reduzir o déficit à meta da União Europeia de 3% do PIB até 2013, ao cortar deduções fiscais para ricos e grandes companhias. Sarkozy, por outro lado, deu sinais de desânimo ao adiantar que, se perder as eleições, deixará a vida política, o que, dito em plena campanha, não deixou nem um pouco contentes os caciques de seu partido, UMP. Mas ele planeja retomar a iniciativa numa entrevista amanhã na TV francesa, em horário nobre.

Será uma disputa interessante para ver quem vai governar o segundo país mais importante da zona do euro, que começa a fazer água não está mal como, por exemplo, Itália e Espanha, mas vai ficando cada vez mais para trás em relação à locomotiva alemã, que aumenta seu cacife para dar a última palavra em relação às duras medidas necessárias para salvar a moeda única e, em última análise, a própria União Europeia.

A última pesquisa CSA (de 23 e 24 de janeiro) mostrou Hollande subindo dois pontos, para 31%; Sarkozy recuando um, para 25%; a candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, perdendo dois, para 17%; e o centrista François Bayrou subindo dois, para 15%. O grande temor do UMP é a campanha de Sarkozy não decolar e ele ser alijado do segundo turno, em maio, por Le Pen.

Hollande não tem a confiança total do PS, mas é a arma do partido para voltar à Presidência, que não ocupa desde o final do segundo mandato de François Mitterrand, em 1995. Apesar disso, os socialistas têm larga experiência no governo, com Mitterrand e também com a política de coabitação com governos mais à direita.

Na teoria, o partido não é a melhor escolha para impor os ajustes necessários para reequilibrar as finanças estatais e relançar a economia estagnada, pois estas implicam cortes no welfare state francês, ferozmente defendido por sindicatos e corporações.

Hollande anuncia planos para elevar impostos sobre ricos e grandes empresas. Ao mesmo tempo fala em aumentar os gastos do governo, criar um banco estatal de fomento e baixar a idade da aposentadoria de 62 para 60 anos. Vai na contramão da Alemanha.