Na hora extra, o encontro com a tragédia
O administrador Celso Renato Braga Cabral Filho foi enterrado na sexta-feira
22/02/2012 - 17h00 | O Globo
RIO - Sob uma chuva fina, Eunice Braga, acompanhada dos filhos Celso, de 17 anos, e Celciane, de 19, seguia em silêncio, amparada por amigos e parentes, o cortejo que levava à sepultura, na manhã de sexta-feira, o corpo do administrador Celso Renato Braga Cabral Filho, de 44 anos. Muito abalada, Eunice parecia não acreditar que o marido tornava-se a primeira vítima da tragédia da Cinelândia a ser enterrada. Na noite do desabamento, ele decidira fazer hora extra na sala da Tecnologia Organizacional (TO), onde acontecia uma obra, apontada como um dos possíveis fatores que contribuíram para a tragédia. Pelo menos 200 pessoas acompanharam o enterro de Celso, no Cemitério do Maruí, em Niterói. O pai do administrador, Celso Renato, contava que o filho não costumava reclamar por trabalhar demais, como aconteceu no dia da tragédia. Meu filho gostava de colocar tudo em dia. Trabalhava sem se queixar. Nossa família está muito triste, mas não queremos apontar os culpados. Há as autoridades para isso. Só não quero que aconteça uma tragédia assim de novo dizia Celso Renato, cercado por amigos. Um grupo de pelo menos dez funcionários da TO foi ao enterro. Além deles, a família do administrador recebia o apoio de amigos e vizinhos do bairro Engenho Pequeno, em São Gonçalo, onde a família mora. No momento do sepultamento, Celso, fervoroso torcedor do Flamengo, ganhou uma última homenagem: uma bandeira do time cobria o caixão e uma outra, menor, foi colocada dentro da sepultura. Aos prantos, Davi Carlos, primo do administrador, contou que acompanhou as buscas nos escombros: Eu estava lá, junto com os outros parentes de vítimas. Tínhamos muita esperança de encontrá-lo com vida. É muito triste perder uma pessoa do bem e tão querida como ele. O engenheiro civil José Affonso Barbosa, de 81 anos, também compareceu ao enterro. Ele contou que Celso é filho da antiga empregada de sua casa. A proximidade das duas famílias era tanta que Affonso acabou se tornando padrinho de Celso. Segundo o engenheiro, apesar das dificuldades financeiras, a mãe incentivava Celso para que estudasse. Celso se formou em administração com muita dificuldade. Morava numa favela, estudava longe e ainda trabalhava. Eu tive a honra de dar o primeiro emprego a ele e o vi crescendo profissionalmente. Meu afilhado era humilde e priorizava a boa convivência com os colegas de trabalho. Eu tinha o Celso como uma referência que deveria ser seguida pela sociedade. Recentemente, eu cheguei a oferecer um emprego para ele ganhar mais, mas não aceitou. Disse que estava feliz na TO. Affonso relembrou a antiga paixão do afilhado: ser jogador de futebol. Ele chegou a integrar o time de base do clube América. Teria sido um grande jogador. Mas preferiu seguir os estudos e fazer a faculdade administração.
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