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A Prainha está para peixe, prancha e petiscos

A faixa de areia, que há 40 anos era reduto apenas de surfistas, ganhou notoriedade e hoje abriga várias tribos


A areia da Prainha fica cheia de banhistas, mesmo nos dias de semana; no verão, a prefeitura interrompe o tráfego de veículos para evitar superlotação da área de preservação ambiental
Foto: Pedro Kirilos / O Globo A areia da Prainha fica cheia de banhistas, mesmo nos dias de semana; no verão, a prefeitura interrompe o tráfego de veículos para evitar superlotação da área de preservação ambiental Pedro Kirilos / O Globo

RIO - Há pouco o sol se erguera, iluminara a faixa de apenas 700 metros de areia protegida pelo maciço da Pedra Branca e refletira aos olhos de quem já estava na Prainha, no feriado de São Sebastião. No mar de "boas ondas nos 365 dias do ano", como dizem os surfistas, já estavam muitos praticantes do esporte, que escolheram a praia como a menina dos olhos. Na areia, debaixo de uma amendoeira, também estavam 16 pessoas, entre adultos e crianças, carregadas de guarda-sóis, isopores, churrasqueira e até chimarrão. Se nas décadas de 60 e 70 a Prainha ficou praticamente intocada, graças à lenda de que servia de abrigo para leprosos, a praia mais do que nunca está por cima da onda, atraindo turistas e cariocas de várias tribos.

Um dos pioneiros no surfe no país, Rico de Souza é um dos que ri da época em que a Prainha era tida como leprosário. Para chegar lá, só de jipe, por uma trilha na Mata Atlântica. Rico conta que há 45 anos, ainda adolescente, tinha receio de entrar naquela área:

No morrinho da Prainha, na Estrada da Guanabara, era onde a gente chegava de jipe. Depois descia a trilha. Quem surfava antes de mim contava que tinha um leprosário lá. Era uma tática para desfrutarem o oásis sozinhos. Eu ia e depois tomava banho com álcool.

A Prainha, preferida de surfistas cariocas, é local certo de campeonatos e ponto de encontro da velha guarda.

Aqui não é o melhor lugar para se aprender a surfar, é um santuário dos antigos praticantes conta o surfista Carlos Gama, há 30 anos pegando onda no reduto. O surfe mudou muito. Na década de 60, na ditadura, os surfistas formavam uma tribo muito reduzida, porque o cabeludo, com cara de hippie, era tido como marginal. Então a Prainha servia como refúgio.

Popularização da Prainha começou na década de 90

A primeira estrada para a Prainha foi inaugurada na década de 80, no mesmo período em que um grupo de surfistas se mobilizou contra a construção de um condomínio no local, num terreno de 1,2 milhão de metros quadrados, do empresário Drault Ernanny, da construtora Santa Isabel. Um projeto de lei criou a Área de Proteção Ambiental (APA) da Prainha e, após longa batalha judicial, a área passou para o controle da prefeitura, que ofereceu à construtora outro terreno como permuta. Em 2001, o Parque Municipal da Prainha foi inaugurado.

Na opinião de antigos frequentadores, a popularização do local começou na década de 90, com o início do funcionamento das linhas Vermelha e Amarela, que facilitaram o acesso à região. E o mundo acabou, literalmente, chegando à praia, após os anúncios do Rio como sede de eventos esportivos internacionais, que contribuíram para o aumento do turismo. Hoje, o movimento só não é maior porque a prefeitura interrompe o tráfego de veículos na Estrada da Guanabara, que dá acesso à Prainha, quando o estacionamento atinge 800 veículos.

É um lugar tranquilo e lindo elogiou o norueguês Rune Madsen, pela primeira vez na Prainha.

O empresário Joelson Pereira conta ter chegado às 7h30m, no feriado de São Sebastião, para conseguir um lugar na sombra de uma enorme amendoeira. A artimanha era necessária para abrigar o grupo, de 16 pessoas, que chegou em três carros.

Aproveitei o feriado e convidei a galera para fazer uma farofada brincou Joelson, que é do Mato Grosso do Sul e trouxe a tiracolo o chimarrão, ou melhor, o tereré (servido com água fria). O povo aqui prefere tereré com limonada.

Pela primeira vez na Prainha, Maria Salete da Silva conta que procurava lugares diferentes.

Morei em Copacabana e achava o bairro e a praia muito tumultuados. A praia aqui é maravilhosa afirma Maria, que contou mais sobre a excursão do feriado. O organizador é aquele branquelo e barrigudinho sem caminha, o meu genro. Viemos de mala e cuia. Trouxemos o necessário para ficar até o pôr-do-sol. Churrasco, água, refrigerante, biscoito. No final, a gente junta tudo no saquinho de lixo, porque não dá para manchar um lugar como este.

Isopores, por sinal, são quase regra na praia que abriga apenas dois quiosques e um restaurante, cujos preços são similares aos da Praia de Ipanema: água a R$ 3; água de coco a R$ 4; e o peixe, variando de R$ 45 (a anchova) a R$ 180 (a peixada à moda Prainha). Ambulantes, que há 15 anos não passavam de meia dúzia, agora chegam a 20, todos disputando fregueses.

Responsáveis por alugar barracas e cadeiras há cerca de dez anos, Luís Gustavo Vienna e Júlio César da Silva se orgulham de receberem celebridades: Lourdes Maria, filha da cantora Madonna; o atacante Lionel Messi; Anthony Kiedis e Flea, da banda Red Hot Chili Peppers, são alguns nomes. Intrigas, eles também relevam.

Ambulantes aceitam até cartão de crédito na praia

Os surfistas pensavam que a Prainha era deles, tentavam nos expulsar e os turistas também. Mas eles têm uma relação tão forte com o lugar, que preservam a área, não deixam virar bagunça. Antigamente, os próprios surfistas cobravam se houvesse algum roubo, desentendido. Hoje tem guarda municipal, policial circulando. Nada acontece garante Luís.

Nativo da Prainha, Madavanan "Das Hemp" surfa há 15 anos no local e hoje aluga material de surfe. Ele bem radical e contra a ocupação da praia:

No começo era um paraíso, sem quase interferência humana. Agora dá para notar o esgoto numa vala próximo aos prédios do parque.

Como diversão, Hemp e uma turma pratica golfe com sementes do Abricó. Se o programa não parece atraente, é possível distrair com as compras. O vendedor de cangas Leo Carvalho, por exemplo, aceita cartões de crédito. Mas, por enquanto, ainda são poucos os pontos onde o celular funciona.